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Daniel Balhego Revisado: Dezembro 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO E DE TURISMO
CURSO DE BACHARELADO EM TURISMO












VILA DA PALHA – LEVANTAMENTO HISTÓRICO E TURÍSTICO DA COMUNIDADE DA AVENIDA AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE NO BAIRRO AREAL, PELOTAS / RS








DANIEL BALHEGO





PELOTAS, DEZEMBRO DE 2009





Daniel Balhego Moreira






MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO E DE TURISMO
CURSO DE BACHARELADO EM TURISMO












VILA DA PALHA – LEVANTAMENTO HISTÓRICO E TURÍSTICO DA COMUNIDADE DA AVENIDA AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE NO BAIRRO AREAL, PELOTAS / RS








DANIEL BALHEGO





PELOTAS, DEZEMBRO DE 2009
Daniel Balhego Moreira






VILA DA PALHA – LEVANTAMENTO HISTÓRICO E TURÍSTICO DA COMUNIDADE DA AVENIDA AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE NO BAIRRO AREAL, PELOTAS / RS







Trabalho Acadêmico apresentado à Faculdade de Administração e de Turismo da Universidade Federal de Pelotas, como requisito à obtenção do título de Bacharel em Turismo.

Orientadora: Profª Msc Carla de Ávila








PELOTAS, DEZEMBRO DE 2009





























BANCA EXAMINADORA:
Maria da Graça Ramos
Carla Silva de Ávila
Guilherme Peglow Klumb


Agradecimentos

Ter ingressado no curso de bacharelado em turismo da UFPEL foi algo que ocorreu por acaso, em decorrência do meu ingresso no curso técnico de hotelaria e turismo do Uni Colégio em 2003, estando no referido curso, apaixonei-me pela ciência do turismo, muito bem apresentada a mim pelo amigo Daniel Botelho. Encontrei-me na UFPel com pessoas que mudariam minha forma de compreender o mundo e aos terráqueos que nele habitam, a esse grupo de amigos demos o nome de “Fives do Turismo”, inicialmente Diego Boeno, Guilherme Klumb, Matheus do Amaral, Maurício Menezes e eu. A esse grupo somaram-se Itamara Mezzalira, Valquíria Sgarbi, Alan Fagundez, Teobaldo Jr., Luis Jr., Marcos Cruz e Vinícius Ebersol. Nesta trajetória tive a alegria de aprender, brigar, sorrir e faltar às aulas de pessoas especiais, quais sejam Letícia Mazuchi, Renata Brauner, Dalila Müller, Urânia Sperling, Alcir Bach, Mario Osório Magalhães, Nara Nilcéia Santos, Maria da Graça Ramos, Flávia Rieth e Franciane Dias. Dentro do grupo de professores do pré-vestibular destaco Edir Vieira Filho, mentor de muitas pessoas que lutam por um mundo menos desigual. Mundo que conheci desde minha infância na periferia da cidade de Pelotas, onde fui educado de forma exemplar pela Avó Antonia, Tias Ineida, Neiva, Orocilda, Izolda, Tios Paulo e Luis, sem falar do meu querido Avô Paulino e minha mãe Daisi. Por eles fui forjado e se não sou um homem melhor é por minha culpa mesmo! Neste berço dividi muitos cafés nas tardes de domingo com Diego Dias, Everton Canez e Mauro Mesko, irmãos de alma que sempre me incentivaram e também têm sua cota de responsabilidade pela conclusão deste trabalho.
Ao término do curso destaco a força que tive de novos e grandes amigos, companheiros de trabalho, Banda Soul da Silva, Alexandre Sabany, Patrícia Stone, Fábio Riemke, Júlio Piedras, Herotildes Moura, Mariana Galindo, Robson Corrêa e muitos outros. Meu agradecimento não menos especial à turma que começou em 2004 a transformar um pós-adolescente que reiniciava sua vida, seria a ATT 2008 caso não houvesse fragmentação a partir da mudança de currículo. Uma lista que começava com Alina e terminava com Waleska, ali começava uma paixão pelo turismo sustentável que nunca terminará. Uma paixão quase comparável à que tenho por minha esposa Juliana Vaniel e nossa pequena Beatriz, fenômeno que acreditamos ser amor. Um amor quase comparável ao idealismo em termos um turismo para todos, democrático, num eterno ato de viajar.























Este trabalho é dedicado à memória de Marcelo Barbuza, Claudionor Bueno Conceição e Rogério Borges Silva, amigos que de alguma forma sempre assistirão minhas vitórias e iluminarão meus caminhos nos momentos de incerteza.































“Viagem boa a gente não enjoa de esquecer que um dia vai voltar” (Viajei – Vitor Ramil, 2007).

“Equivoca-se quem pretende que já não existe espaço para a utopia. Esse é o desafio maior que enfrenta a nova geração: convido-a a assumi-lo sem temores.” (Celso Furtado, 2002).





1 – INTRODUÇÃO

Estudar o turismo e todo o universo de ciências que ele abrange, das quais se apropria e com as quais dialoga é um exercício que se mostra fascinante, porém existe um campo do conhecimento que desperta inquietação naqueles que dedicam seus estudos ao elemento humano: o campo das ciências sociais, ramo do conhecimento que foca o estudo do homem através da pesquisa metodológica; é a partir do aprofundamento da pesquisa e da leitura nessa área que temos condições de analisar e avaliar o mundo que nos cerca, a partir deste prisma teórico o turismo abandona seu estereótipo que o limita ao universo das viagens, dos pacotes, do lazer, surpreendendo quem se dedica ao estudo deste fenômeno e lhe apresenta a diálogos inusitados, quais sejam ética, responsabilidade social, democracia no turismo, turismo endógeno, aspectos psicológicos, propaganda, antropologia e etc.
Durante o curso atuei como estagiário na Pousada de Charme Charqueada Santa Rita, na cidade de Pelotas, de novembro de 2006 a março de 2008, local que recebe turistas, visitantes, estudantes, acadêmicos e celebridades. Local onde se realizam eventos sociais como casamentos, reuniões de negócio, filmagens, aniversários, etc. Nesse período, e tendo como base teórica os ensinamentos apreendidos no curso de bacharelado em turismo da Universidade Federal de Pelotas, fui observador da realidade da comunidade local, suas relações com o patrimônio, relações essas geralmente hostis e desrespeitosas ou de total desinteresse e da mesma forma, da relação da empresa com essa comunidade local que igualmente é anfitriã. Além disso, observei as ações do poder público para com ambos os atores, cenário que pretendo apresentar neste trabalho.
Sempre que se aborda a história de Pelotas, inclusive a história do Rio Grande do Sul (Kuhn, 2002; Pesavento, 1980), tem-se como elemento significativo o advento da economia do charque, fenômeno que legou à sociedade atual um patrimônio arquitetônico diferenciado e valorizado por sua grandiosidade e refinamento dos detalhes, bem como a estrutura e paisagem urbana, economia que colocou pelotas entre as quatro principais cidades da província. Outro fator de grande importância é a relação da cidade com a cultura, no que se refere ao campo das artes, e a política, decorrente também da grande influência das oligarquias surgidas no último quartel do século XIX, o fator cultural é conseqüência de dois fenômenos quais sejam: a grande diversidade étnica trazida por portugueses, africanos e imigrantes ítalo-germânicos além do trânsito de atrações artísticas pelos teatros e grandes residências onde era comum a prática dos saraus; a questão política teve destaque pela participação das oligarquias nos principais movimentos reivindicatórios da época, a destacar a guerra dos farrapos onde a tributação sobre o charque, a carne conservada através do sal cujo núcleo se encontrava na cidade de Pelotas, foi um dos principais motivos pelo desencadeamento da campanha farroupilha, para essa análise contribui o exposto por Magalhães (1993, s.p.),


Em resumo: às vésperas da Revolução Farroupilha, esses quatro municípios centralizavam a atividade econômica da Província, sem que se pudesse atribuir a qualquer deles uma hegemonia evidente. Havia dois eixos: o eixo Pelotas–Rio Grande, verdadeiro núcleo pecuarista da Campanha, desenvolvendo respectivamente a industrialização e a exportação de produtos pecuários; e o eixo Porto Alegre–Rio Pardo, especializado no transporte e comercialização de gêneros produzidos no interior e na colônia (lembre-se que a primeira leva de alemães já havia imigrado em 1824).



Decorrentes desse desenvolvimento existem também os fatores negativos, muito comuns do sistema capitalista como a desigualdade, o preconceito social e étnico, a degradação do meio-ambiente e a concentração de riqueza nas mãos de uma minoria mais abastada, minoria esta que via de regra dita o discurso historiográfico a partir de seus interesses e ponto de vista. Segundo Al-alam (2008, p.35),


Desde o século XIX até os dias atuais, temos escritores, ou memorialistas, empenhados em demonstrar aos homens do futuro a importância desta hoje populosa cidade da zona sul (...). Para estes memorialistas, a história local prescindia de notas e dados sobre a vida dos populares, das pessoas ditas comuns. O que importava eram os grandes homens, os grandes atos, descartava-se a vida cotidiana das ruas.


Esse sistema resistiu à decadência do citado ciclo e se multiplicou, deixou reflexos, impôs diferenças e distância entre a comunidade local do atual bairro onde hoje se encontram as antigas e desativadas charqueadas, ergueu muros que separam a comunidade local não só física, mas também cultural e educacionalmente; Destacamos aqui a provável antipatia dos escravos em relação aos antigos senhores, afirmada por Ribeiro (2009, s.p)


Havia também a resistência de cativos ao sistema imposto, apesar de a historiografia brasileira tratar muitas vezes o trabalhador escravizado como agente passivo ao sistema escravista. Foram formas de resistência ao trabalho escravizado: a apropriação de bens, o suicídio, a quebra de instrumento de trabalho, os ataques aos proprietários e seus familiares.


O professor Mario Maestri (1984, p. 114) em sua obra O Escravo no Rio Grande do Sul, também aborda o tema, trazendo o aspecto acadêmico e a dificuldade de fontes precisas sobre alguns acontecimentos da época, reafirmando a questão da resistência e contestação do regime


A resistência do escravo à escravidão é um fato histórico. Está determinada e, também, determina as grandes tendências de nossa história. Só assume toda a sua significação nesse mesmo quadro histórico. O nível de desconhecimento sobre o escravismo gaúcho obriga-nos, no entanto, a tentar uma abordagem geral, quase a-histórica; a tentar delinear nada mais do que os traços gerais desse processo. Só feito esse trabalho é que podemos partir pra um tratamento específico e monográfico dos diferentes momentos desse conjunto.


Alguns ataques permanecem até hoje, onde os atores, de forma não tão hostil, passaram a ser os moradores do entorno das referidas propriedades que demonstram de diversas formas que serão expostas neste trabalho, sua falta de afinidade, a falta de noção de pertencimento ao contexto histórico no qual estão inseridos, uma falta de identificação com o ambiente que não parece estar próxima de ser superada, visto que também não se tem observado ações que possam minimizar a distância, seja por parte das entidades gestoras político e adminstrativas públicas ou privadas – prefeitura, associações de classe, convention bureau, etc. ou também das organizações não governamentais, entidades de classe, clubes e demais centros de convívio social existentes na comunidade. Portanto o presente trabalho também visa analisar, identificar possíveis fatores responsáveis e propor soluções racionais para minimizar os aspectos negativos que possam ser encontrados e maximizar os aspectos positivos da mesma forma, tendo como objeto de estudo as relações em impressões da Vila Saint-Hilaire (ou Vila da Palha). Além disso, propõe-se uma abordagem que tenha como referência o aspecto cultural que norteia o negócio turístico no município e suas problemáticas em relação à sociedade local, analisando aonde pode nos levar o debate sobre turismo cultural caso não esteja estabelecida uma identidade ou identificação, um conhecimento do seu patrimônio material e imaterial; Mais do que isso, que turismo cultural pode existir se não existir nos residentes uma prática cultural notável e visível, um gosto real pela cultura em suas mais variadas práticas, nos diversos níveis sociais e econômicos?







Figura 1 – Lixo junto à cerca, entrada principal Figura 2 – Acúmulo de entulhos próximo à
da Charqueada Santa Rita. entrada da Charqueada São João.
Fonte: Elaborada pelo autor. Fonte: Elaborada pelo autor.

Surge também a dúvida sobre a possibilidade de se vender aos viajantes uma cidade-cultura como produto turístico sem que os habitantes locais não tenham essa concepção. Nosso questionamento se dá a partir de uma crítica buscada junto a um dos pilares do turismo sustentável: a participação da comunidade local. Colabora para essa concepção a idéia de Dias (2006, p. 28)


O fator humano é essencial, são as pessoas – visitantes e residentes – que dão vida e significado ao turismo. Nessa ótica, uma cultura turística sempre remete à participação das pessoas na busca de melhores condições para tornar essa atividade possível como forma de gerar benefícios à comunidade. Pode-se considerar a cultura turística como parte de cultura mais geral da sociedade, orientada ao conhecimento e à valorização dessa atividade, que busca a satisfação do visitante e a obtenção de mais benefícios para as comunidades receptoras.


Pelotas é uma cidade singular em vários sentidos, não é possível no município, por exemplo, a invenção de uma referência ou tradição ligada a um tipo de imigração referente a um determinado país de origem. A cidade recebeu durante os séculos XIX e XX, cidadãos que emigraram da Itália, França, Alemanha, Inglaterra, além dos escravos africanos e não obstante os portugueses colonizadores e charqueadores que eram os que ditavam todas as regras culturais na região desde os fins dos anos 1700; temos, portanto, uma diversidade de hábitos e tradições muito ampla e a erudição como elemento de glamourização cultural de uma minoria; sabemos que o limite de aceitação desse aspecto é pouco abrangente e que a cultura popular, a cultura das grandes massas, é o que dá uma identidade para o local. Surge mais um questionamento: Que cultura, enquanto tida como produto turístico, pode ser vendida para os habitantes de Pelotas e aos estrangeiros? Para contribuir na busca por uma resposta trazemos o exposto por Anjos (2000, p. 68)


Toda a Serra dos Tapes (a oeste da cidade, grifo nosso) foi dividida em pequenas propriedades, as picadas multiplicavam-se e nelas o movimento crescia. Estabeleceu-se ali uma corrente de imigrantes, que geralmente não chegavam diretamente da Europa. Eram originários das colônias situadas mais ao norte do Rio Grande do Sul, sendo na sua maioria alemães. Mas afluíram para lá também espanhóis, austríacos, franceses e italianos, muitas vezes vindos de outra província.


Entendo que o que temos de positivo pode ser nosso ponto fraco e vice-versa: As variadas etnias aqui existentes colaboram para a diversidade artística e arquitetônica, por exemplo, mas também, pela sua amplitude de abrangência, criam dificuldades para quem se acostumou a trabalhar no mercado turístico como algo que só possa ser promovido a partir de um único tema, a citar: pomeranos no município de São Lourenço do Sul, Italianos na região da Serra Gaúcha, alemães em Santa Cruz do Sul e outros exemplos de culturas como produto turístico que geram dividendos e atraem turistas de diversos locais pelo mundo afora. Surge aqui um desafio, portanto, aos profissionais que pretendem se dedicar ao marketing turístico em cidades de temáticas étnicas pluralmente complexas, justamente o caso da cidade de Pelotas.
Tendo-se alguns aspectos da questão cultural pelotense expostos e o panorama histórico da cidade esboçado, buscaremos compreender as relações entre a comunidade da Vila Saint-Hilaire (Vila da Palha) e as charqueadas que a delimitam. É conveniente esclarecer que o fator de motivação a estudar o fenômeno turístico naquela região é o fluxo de visitantes conseqüente da divulgação proporcionada pela minissérie A Casa das Sete Mulheres, iniciativa da Rede Globo de Televisão, que utilizou a Charqueada São João como cenário e a pousada da Charqueada Santa Rita como meio de hospedagem. Até então essas propriedades eram residências particulares que eventualmente recebiam pesquisadores, estudantes e curiosos. A minissérie, veiculada no ano de 2003, tem o caráter de divisor de águas na recente história do turismo receptivo da cidade de Pelotas. As localidades vêm se adequando ao longo do tempo, porém, aparentemente, sem projetos ou iniciativas que incluam a comunidade; Abrem-se as portas para os turistas e se erguem os muros para os vizinhos, exceto para aqueles que tenham dinheiro para utilizar os serviços, característica de uma lógica de mercado praticamente medieval; Teme-se que a riqueza histórica presente na região assuma cada vez mais o antigo aspecto oligárquico e aristocrata que, inevitavelmente, após décadas gloriosas, encontrou sua decadência e o abandono. contrariando importantes capacidades que o turismo tem, como por exemplo, aproximar pessoas e reduzir a pobreza, proporcionar desenvolvimento, emprego, renda e valorização da cultura e o meio ambiente. Para comprovar cientificamente o que foi observado busca-se a pesquisa de campo para descobrir o quanto tal visão possa estar equivocada.

1.2 – OBJETIVOS

O presente trabalho tem como objetivo geral:
- Perceber a relação entre a comunidade local, especificamente os habitantes da Avenida Auguste de Saint-Hilaire no trecho denominado Vila da Palha, e as charqueadas entre as quais este trecho é delimitado: Charqueada São João e Charqueada Santa Rita na cidade de Pelotas, bairro Areal, expondo seus aspectos sociais, econômicos e culturais.

Estes objetivos desdobram-se nos seguintes objetivos específicos:

- Buscar, através da história oral, visto que as fontes escritas são escassas, um levantamento histórico da Vila da Palha.
- Elencar aspectos positivos e negativos na dinâmica do turismo na localidade.
- Verificar o grau de informação da população estudada no que tange a história, patrimônio, cultura e a preservação destes aspectos.
- Traçar um perfil sócio-econômico dos habitantes da localidade estudada.
- Verificar a existência de comprometimento das empresas turísticas da localidade para com a sustentabilidade, responsabilidade social e ambiental

2 – METODOLOGIA
O presente trabalho será realizado na comunidade da Vila da Palha, conjunto de residências que compõem a parte da Avenida Auguste de Saint-Hilaire que se encontra entre a Charqueada Santa Rita e Charqueada São João, no Bairro Areal, tendo por limite a margem esquerda do Arroio Pelotas e a Estrada da Costa, no município de Pelotas.
Para que se alcancem os objetivos propostos neste trabalho, será realizada uma pesquisa em nível exploratório, considerando ser esta a melhor forma em função das limitações de tempo decorrentes de vários fenômenos extra-acadêmicos. Para Gil (1999, p.43)
As pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver-se, esclarecer e modificar conceitos e idéias. Tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores. De todos os tipos de pesquisa, estas são as que apresentam menor rigidez no planejamento. Habitualmente envolvem levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso.

Desta forma trabalharemos no intuito de esclarecer como a comunidade local se relaciona com o turismo desenvolvido na região, compreendendo sua relação com as charqueadas que fazem parte do seu entorno. Tendo-se como fator preponderante a questão ligada ao desenvolvimento do turismo e a participação local, consideramos de extrema relevância o estudo pretendido. A pesquisa exploratória terá o papel de esclarecer visões pré-estabelecidas; de acordo com Gilberto Velho (1994, p. 126)
O que sempre vemos e encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido e que não vemos e encontramos pode ser exótico, mas, até certo ponto, conhecido, No entanto, estamos sempre pressupondo familiaridades e exotismos como fontes de conhecimento ou desconhecimento, respectivamente.

A abordagem qualitativa da pesquisa é a mais adequada para o caso, pois, segundo Denzin e Lincoln (2000) apud Cesar (s.d, s.p)
A abordagem qualitativa tem sido frequentemente utilizada em estudos voltados para a compreensão da vida humana em grupos, em campos como a sociologia, antropologia, psicologia entre outros das ciências sociais. Esta abordagem tem tido diferentes significados ao longo da evolução do pensamento científico, mas se pode dizer, enquanto definição genérica, que abrange estudos nos quais se localiza o observador do mundo, constituindo-se, portanto, num enfoque naturalístico e interpretativo da realidade.

As atividades que delinearão o presente trabalho serão os seguintes:

a – Pesquisa Bibliográfica sobre os conceitos trabalhados que possibilita a confirmação de dados obtidos através de história oral ou observação pessoal; De acordo com Gil (1999. p. 65)
A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fator de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. (...) também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários.

b – Estudo de Caso dentro da comunidade da Vila da Palha. Temos em Gil (1999, PP. 72-73) que “O estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado, tarefa praticamente impossível mediante os outros tipos de delineamentos considerados.” Corrobora com essa afirmativa a posição de Yin apud Gil (1999, p. 73) “o estudo de caso é um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro do seu contexto de realidade; quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claramente definidas e no qual são utilizadas várias fontes de evidência.” Considerando o exposto chegamos à conclusão de que essa técnica é a que mais proporciona o alcance dos objetivos propostos nesse trabalho.
O estudo de caso pode envolver exame de registros, observação de ocorrência de fatos, entrevistas estruturadas e não-estruturadas ou qualquer outra técnica de pesquisa. O objeto do estudo de caso, por sua vez, pode ser um indivíduo, um grupo, uma organização, um conjunto de organizações ou até mesmo uma situação. (Dencker, 1998, p. 127)

c - Entrevista, fator importante para a coleta de dados, desdobramento do estudo de caso acima justificado.


3 – REFERENCIAL TEÓRICO

O turismo é um tema que vem sendo analisado há bastante tempo, desde que surgiu a discussão sobre a oposição entre trabalho e tempo livre ao final do século XIX, tendo como referência as idéias de Paul Lafargue e Karl Marx, momento em que se falava na importância do lazer ou do “direito à preguiça” e também época do auge do Grand Tour, uma espécie de turismo que consistia em viagens na busca de conhecimento, limitado às famílias mais abastadas; porém é após o término da segunda grande guerra que a modernização dos transportes possibilitará um aumento exponencial do número de viagens e sua conseqüente abrangência em relação ao acesso da classe média a pratica das viagens. Atualmente o conceito oficial de turismo, considerando-se o fator institucional hierárquico, é estabelecido pela OMT / ONU (1994) que define da seguinte forma


Turismo é uma atividade que consiste no deslocamento temporário de pessoas fora de seu lugar habitual durante períodos de tempo variáveis, por um período de tempo menor do que 12 meses e cuja finalidade ao viajar seja alheia ao exercício de uma atividade remunerada no lugar que visite.


Contudo, diversos autores foram mais longe na conceituação do turismo, trazendo ao estudo outras abordagens e a análise epistemológica do fenômeno no que se refere aos campos do conhecimento e da vida do homem, o aspecto social é trazido por Padilha (1994, apud Dias, 2006, p.10) que define turismo como


Um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivo de recreação, descanso, cultural ou saúde, se deslocam de seu lugar de residência habitual a outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural.


Por se tratar essencialmente de uma prática de lazer que inclui a viagem, que via de regra desencadeia socialização, o turismo deve ser compreendido como atividade econômica, responsável por movimentar significativas somas em capital nas localidades onde esse ocorre, de acordo com o exposto por Urry (2001, p.17)


O turismo é uma atividade de lazer, que pressupõe seu oposto, isto é, um trabalho regulamentado e organizado. Constitui uma manifestação de como o trabalho e o lazer são organizados, enquanto esferas separadas e regulamentadas da prática social, nas sociedades “modernas”.


Reforçando o ponto de vista econômico e trazendo o aspecto político da dinâmica do turismo, colaboram para a análise as afirmações da professora Luzia Coriolano:

O turismo é entendido como uma atividade econômica bastante expressiva da contemporaneidade, por envolver os espaços naturais e produzidos pelo trabalho e também as pessoas, as que podem viajar e as que recebem os visitantes, ou seja, os turistas e os residentes. Os produtores dos serviços turísticos e os espaços são alvos de políticas públicas e privadas, políticas oficiais e alternativas, denotando a magnitude e a expressividade dessa prática. (2006, p.16)

O turismo e as sensações com as quais os turistas se deparam é um dos grandes focos do trabalho de John Urry, o autor é responsável por diversos estudos que colocam o turismo como sendo um produto variável, problemático, onde o turista pode ser vulnerável e ao mesmo tempo predador, segundo ele “o devaneio e a expectativa, ambos disfarçados, são processos para o consumismo moderno” (1996, p.29).
Repensando o exposto por Urry, na citação acima, podemos ter como foco de raciocínio não o turista e sim o residente do local visitado, que está muito mais suscetível às conseqüências desfavoráveis e negativas da prática turística do que o viajante que, obviamente, corre o risco de ter como prejuízo o investimento nos serviços contratados, porém, seu local de residência permanecerá intacto.


Tem havido poucas evidências até agora de que os turistas estejam muito interessados no conceito de turismo sustentável, além da preocupação natural com a qualidade do meio ambiente das localidades de férias por eles freqüentadas. [...] Talvez, os turistas que levam a sério o desenvolvimento sustentável em suas vidas diárias acreditem que suas viagens anuais de férias são o único momento em que podem se comportar hedonisticamente, sem a necessidade de serem responsáveis. (Swarbrooke, 2000. p.16)


Há que se refletir sobre a degradação muito freqüente das localidades contempladas com o turismo de massa que, até os anos noventa do século XX, por conta da falta de planejamento sustentável, tiveram paralelamente ao fluxo intenso de estrangeiros, impactos ambientais, choques culturais, prostituição, exploração imobiliária e etc. Muitas destas localidades se depararam com o fracasso de seus empreendimentos que, ao priorizar o lucro imediato, contribuíram para a destruição, por exemplo, da paisagem, através de construções não planejadas, e degradação da paisagem. Contribui para este raciocínio a relevante afirmação de Luis Moretto Neto que diz


Em muitas localidades da terra, o fomento da atividade turística, por parte de dirigentes públicos, empresariais ou mesmo das comunidades envolvidas, assume características de monocultura econômica, com impactos [...] negativos, seja através da captação quantitativa de fluxos, na operação temporal irregular, na incorporação de valores e referências de outros grupos e espaços, sem a observância de quaisquer limites. É a lógica de mercado. (Revista Brasileira de Administração. Ano X, nº 30. 2000, p.36)

Portanto, é essencial ao planejamento turístico, ter-se conhecimento do conceito de turismo sustentável, trazido oficialmente pela OMT, Organização Mundial do Turismo (2008, s.p.), que define o turismo sustentável como “aquele ecologicamente suportável em longo prazo, economicamente viável, assim como ética e socialmente eqüitativo para as comunidades locais.”


A sustentabilidade deve integrar todas as políticas de turismo como uma estratégia de desenvolvimento, de modo a evitarem-se modelos ultrapassados como a formação de ilhas ou bolhas territoriais isoladas de turismo, que contribuem para a marginalização da comunidade residente. As novas tendências, que remetem a uma perspectiva de desenvolvimento turístico sustentável, buscam uma relação mais próxima dos visitantes com a cultura, com a natureza e com a população local, a fim de ampliar-se a oferta de atrativos e diminuir-se a natureza sazonal da atividade. (Dias, 2006. p.08)


Outro aspecto do turismo cujo conceito ainda é discutido é o que dá conta do fomento turístico a partir da própria localidade ou no interior dela, onde os residentes entram em contato ou utilizam serviços, instalações e toda a infra-estrutura; entendemos que a sustentabilidade do turismo pode ocorrer a partir do momento em que se democratiza o acesso ao mesmo. Caso nos proponhamos a desconstruir os conceitos clássicos estabelecidos poderemos afirmar que o turismo pode ser identificado no simples ato de se deslocar para uma área estranha ao indivíduo, numa experiência claramente antropológica. A literatura existente contempla esse pensamento que se opõe ao turismo de massa.
A atividade turística desenvolvida de maneira sustentável pode trazer muitos benefícios para a comunidade receptora, mas conseguir implementar o turismo de base comunitária tem sido um grande desafio para os gestores da área, uma vez que se vêem modelos de desenvolvimento turístico que descaracterizam a cultura local e promovem a exclusão social e econômica das comunidades residentes.
(Tavares e Carvalho, 2008, p. 04)

Sendo assim o turismo poderá ocorrer de um bairro da cidade para outro, tal fenômeno dificilmente será medido, entretanto teremos, possivelmente, consumidores locais disputando espaço com turistas. Dias afirma que
“Embora os dados estatísticos sejam escassos, é facilmente observável o crescimento do turismo doméstico no Brasil. Com o aumento de linhas de crédito, com o barateamento do transporte aéreo e com a melhoria da infra-estrutura rodoviária, aumentam as viagens de longa e média distância(...)”(2006, p. 213)

Avançando no pensamento acerca do caráter doméstico do turismo encontramos em Beni (2006, p.36) uma visão que se soma à idéia do abandono da postura passiva quanto à interação-participação da comunidade local nas atividades ligadas ao turismo.
O desenvolvimento endógeno consiste em um enfoque territorial do desenvolvimento e do funcionamento do sistema produtivo. O território é um agente de transformação, não mero suporte dos recursos e atividades econômicas, pois existe interação entre as empresas e os demais atores, que se organizam para desenvolver a economia e a sociedade.

Considerando as duas abordagens, doméstica e endógena, partimos para a reflexão cuja pergunta encerra em si a própria resposta: Não é factual que para a comunidade desenvolver um pensamento turístico seria coerente oferecer a própria prática do turismo, o passeio breve ou a viagem? O distanciamento do local de origem pode levar ao estranhamento e a valorização ou descobrimento de características singulares de uma determinada localidade.
A preocupação em compreender e se colocar no lugar do “outro” fez com que os antropólogos cultivassem um estranhamento diante dos fenômenos observados em outras culturas, Esta atitude de estranhamento, não só com o que ocorria à sua volta, mas com eles próprios, permitiu que os antropólogos questionassem e captassem fenômenos que de outra maneira talvez passassem desapercebidos. (Oliven, 1987, p. 11)











4 AS CHARQUEADAS E A VILHA DA PALHA, ASPECTOS GERAIS.

4.1 A Charqueada de Ignácio Rodrigues Barcelos – atual Charqueada Santa Rita:


A empresa de salga de carne de Ignácio Rodrigues Barcelos foi fundada em 1826 e foi uma das sete empresas desta família. Quando foi inaugurada já transcorriam 47 anos de produção do charque, em atividade desde 1779 quando José Pinto Martins estabeleceu a primeira charqueada na então Freguesia de São Francisco de Paula (atual município de Pelotas), às margens do Arroio Pelotas. É o “Ciclo do Charque” que irá lançar nossa cidade como capital econômica e cultural da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul durante todo o século XIX. De acordo com Marques (1990, p. 27):

A indústria se instalou, definitivamente, no Rio Grande do Sul (...) no ano de 1779. Desde então, graças à ampliação do mercado consumidor de charque, devido ao desenvolvimento da lavoura, no Centro e Norte do país, foram-se multiplicando as charqueadas de Pelotas, resultando num único centro produtor de charque, situação que perdurou por pouco mais de um século.








Figura 3 – Vista da Sede da Charqueada Figura 4 – Bloco de suítes da pousada de
Santa Rita [atual residência dos proprietários] charme. Tijolos unidos por barro.
Fonte: Elaborada pelo autor. Fonte: Elaborada pelo autor.

Durante sua trajetória a empresa foi sendo mantida hereditariamente, tendo em torno de 30 escravos, o que denota um volume não muito grande de produção se comparado a outros empreendimentos que contavam com, no mínimo, o triplo de cativos. A falta de documentos e relatos por parte da família de Inácio Barcellos faz com que não tenhamos muitos dados concretos sobre a história da propriedade. Sabe-se que esta ainda manteve-se durante a decadência da produção através do fabrico de língua em conserva enlatada, produto este que era exportado em quantidades significativas; porém as atividades das charqueadas pelotenses de forma geral irão se encerrar ao final dos anos 30, devido ao advento da refrigeração e o conseqüente consumo da carne fresca, além da própria alteração da cultura gastronômica brasileira, pois somando-se ao consumo da carne resfriada temos a influência das grandes massas de imigrantes da Europa que aqui introduziram a carne suína, embutidos, hortifruti granjeiros e de aves. A propriedade fica abandonada e suas quase ruínas são adquiridas nos anos sessenta por Geraldo Mazza, rico comerciante, que a presenteia a sua segunda esposa para residência de verão. O saladeiro – galpão de alvenaria onde a carne encontrava-se com o sal vindo da Espanha – passa a ser a sala da residência, ficando a antiga sede a disposição dos funcionários para moradia, surge o nome Santa Rita. No final dos anos oitenta é vendida à família Cunninghan que reforma e passa a residir na antiga sede. Em 1990 a família Clark adquire a propriedade e no início do novo século passa a trabalhar na área de eventos alugando o antigo saladeiro para realização de casamentos, formaturas e etc. Em 2005 o projeto da pousada de charme é concluído e passa a atuar de forma mais abrangente na área do turismo com três produtos: A hospedagem, o salão de eventos e a visitação guiada.


- A hospedagem: conta com seis suítes que foram aperfeiçoando-se através do tempo, de acordo com o retorno do investimento. Estas são decoradas com móveis de época restaurados, ladrilho hidráulico e azulejos alemães nos banheiros, tábua corrida nas suítes, mármore italiano de carrara, espelhos bisotê e outros atributos que remetem o hóspede ao século XIX. Esta rusticidade é combinada com as necessidades tecnológicas que a vida moderna exige, quais sejam: ar-condicionado, telefone, internet de alta velocidade, televisor colorido, reprodutor de digital-video-disc, cofre com senha eletrônica programável, calefação com radiadores, secador de cabelos e etc. Além do conforto das acomodações o hóspede conta com café da manhã em sala com vista para o Arroio Pelotas, passeios de bicicleta, caiaques, canoa canadense, cavalos, barco e jogos de mesa em sala de convivência com lareira.

- O salão de eventos: tem capacidade para 150 pessoas e somente é locado para eventos particulares (formaturas, casamentos, aniversários, conferências, reuniões de trabalho, entre outros) onde não haja a venda de ingressos. Disponibiliza-se aos contratantes mesas, cadeiras, jardins do entorno do salão e serviço de limpeza.

- A visita orientada: é o terceiro produto, onde através de passeio pela propriedade se conta a história da produção do charque, suas causas e conseqüências e contextualização no panorama estadual, nacional e internacional, através de informações pesquisadas em extensa bibliografia. Durante cerca de 50 minutos o monitor acompanha os visitantes, concluindo a caminhada no Museu do Charque que possui doações da produção do filme Concerto Campestre (2003), maquete de uma charqueada e peças de vestuário, réplica de uma pelota, peças avulsas e reprodução de xilogravuras da série Xarqueadas, do artista Danúbio Gonçalves.

4.2 A Charqueada de José Gonçalves Chaves – Charqueada São João

Construída no ano de 1810, a charqueada de Antônio José Gonçalves Chaves, um dos mais prósperos e influentes empresários da época, é um grande acervo arquitetônico da época colonial, teve notoriedade histórica por ter sido meio de hospedagem do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire durante sua passagem por este território, tendo este viajante colaborado com seus relatos para a escassa bibliografia existente sobre o passado do município. Foi um dos locais de conspiração da causa farroupilha, de onde saíram os projetos, por exemplo, da construção da primeira embarcação a vapor do Brasil, a barca Liberal, que navegou nas águas do Arroio Pelotas e Canal São Gonçalo a partir do ano de 1833.








Figura 5 – Sede da Charqueada São João Figura 6 – Pátio Charqueada São João
Fonte: Erich Macias. Acervo Pref. Mun. Pelotas Fonte: Álbum Público de Vladi – internet ¹

A guerra civil começaria dois anos depois, fazendo com que o proprietário desta próspera empresa, um abolicionista e possuidor de uma das maiores bibliotecas da província, se exilasse no Uruguai aonde viria a morrer acidentalmente. Gonçalves Chaves é autor do primeiro tratado sobre economia no Brasil, o livro Memórias Ecônomo-Políticas, de 1822. De acordo com Gutierrez
Era uma figura ímpar entre seus pares. Principalmente, pelo pioneirismo de seus escritos, tanto no que se refere à data de publicação, 1822, como também, pelas críticas e idéias que divulgava. Defendia o fim do regime escravista; apostava nos princípios do liberalismo econômico; censurava as elites locais e os representantes da coroa lusa. (1993. p.129)¹ - http://picasaweb.google.com/lh/photo/0pAeph7WUI3-iVrSzOVCvg
Seus filhos e netos herdaram a próspera charqueada que no século XX pertenceu ao francês João Tamboridengui que notoriamente, pioneiro como o fundador da Charqueada São João, adotou a mão-de-obra livre de seus patrícios franceses numa de suas charqueadas antes da libertação dos escravos no ano de 1884, ao se inventariar a propriedade de José Gonçalves Chaves, registrou-se a presença de aproximadamente cinqüenta e três cativos.
Nos dias atuais a propriedade pertence à família Mazza, que também foi proprietária da Charqueada Santa Rita a partir dos anos 60 do século XX, da mesma forma pertenceu-lhes a Charqueada de Bernardino Barcellos ao lado da atual ponte que leva até a praia do Laranjal. Desenvolve-se na Charqueada São João o turismo com visitações e passeios de barco, além do esporte através do aluguel do campo de futebol; Pode-se, também, alugar as instalações para eventos sociais.

4.3 A Vila da Palha
A avenida Auguste de Saint-Hilaire, popularmente conhecida como Vila da Palha é uma pequena comunidade com aproximadamente cento e vinte residências que tem seu limite norte com a Estrada da Costa, limite sul com o Arroio Pelotas, ao leste se limita com a Charqueada São João e a oeste com a Charqueada Santa Rita. A comunidade é atendida pelas redes elétrica, telefônica, água potável e esgotos. As famílias em sua maioria são integradas por trabalhadores assalariados que atende a demanda de empresas da região, quais sejam empresas fabricantes de adubos, biscoitos, transporte coletivo, comércio e etc. De acordo com o observado é possível afirmar que a comunidade não está inserida em nenhuma atividade turística que é fomentada pelas duas charqueadas limítrofes; no trabalho realizado durante o período de estágio curricular na Charqueada Santa Rita e a freqüente comunicação e contratação de alguns serviços junto à Charqueada São João pude observar que o público do entorno não se envolve ativamente, salvo a exceção de uma das funcionárias mais antigas ser moradora da comunidade da Vila da Palha. No entanto não são raras as ocasiões em que os habitantes prestam auxílio aos viajantes que erram o caminho até os pontos turísticos, adentrando a avenida Auguste de Saint-Hilaire que também é um dos endereços da Charqueada Santa Rita Pousada de Charme.













Figura 7 – Imagem de satélite da comunidade da Vila da Palha
Fonte: Google Maps (www.maps.google.com)

A Vila da Palha surgiu a partir de uma ocupação irregular que passa a acontecer em meados de 1955 quando o Sr. Ferreirinha – alcunha de José Ottoni Ferreira Xavier, proprietário daquele terreno e de praticamente todo o Balneário dos Prazeres (Barro Duro), cede um lote para que a família a se instalar passe a tomar conta da preservação e manutenção da propriedade. Outras famílias passaram a se instalar na propriedade, esse fenômeno se deu por dois motivos simultâneos: o êxodo rural e a industrialização urbana desencadeada no início do século XX.

A Fábrica de Adubos e Produtos Químicos foi instalada em 1912, no Areal. O total das farinhas, ou seja, 7.394.300 quilos, e a graxa industrial, 129 mil quilos, foram vendidos em 1921, neste Estado, e a cola, 1.396.500 quilos, para os portos do Norte e repúblicas do Prata. (Osório, 1998. p. 437)

No ano de 1982, dado o expressivo número de residências, é promulgada a lei 2.709 (anexo 1) que trata da oficialização da doação do terreno na data que, propositadamente ou não, coincide com o dia da abolição da escravatura.
Na mesma obra Fernando Osório relata a existência de mais de cinqüenta fábricas cujos ramos variam de produtos farmacêuticos a derivados do tabaco, chapéus, tecidos, sabão, olarias, etc. Atividade que captou bastante mão-de-obra foi o trabalho nos pomares da família Rheingantz, na localidade da então desativada charqueada do Barão do Jarau na margem oposta do Arroio Pelotas. É desta época a construção da ponte de madeira que permitia a travessia para o outro lado do arroio, promovendo o acesso que antes se dava através do uso da balsa da família Assumpção (Lazzaroto, 2009, p. 03).
Nesta época eram escassos os meios de transporte coletivos, viria nas décadas seguintes o prolongamento das linhas do ônibus e do bonde a partir do centro. Até então a região era pouco habitada, pois não se morava no entorno das charqueadas por conta do mau cheiro das sobras de carne e ossos que entravam em decomposição, da proliferação de moscas e outros insetos. Mais de vinte anos separam o fim do ciclo do charque com o início da ocupação das terras objeto de nosso estudo.



















Figura 8 – Entrada da Vila da Palha, início da Avenida Auguste de Saint-Hilaire.
Fonte: Elaborada pelo autor.


ANEXO - 1



Transcrição da Lei que regulariza a posse dos moradores da Vila da Palha.



LEI Nº 2.709

Autoriza o Município a receber em doação, uma Gleba de terras, de propriedade do Dr. José Ottoni Ferreira Xavier e dá outras providências.

O PREFEITO MUNICIPAL DE PELOTAS, Estado do Rio Grande do Sul.

Faço saber que a Câmara Municipal de aprovou e eu promulgo a seguinte Lei:

Art. 1º - Fica o Município, pelo Poder Executivo, autorizado a receber em doação do Dr. José Ottoni Ferreira Xavier uma Gleba de Terras, com 1.11.35 ha., no local denominado “Vila da palha”, situada entre a Rua Saint Milaire (antiga Estrada para o Laranjal) e a Charqueada Barcellos à beira do Arroio Pelotas, imóvel este registrado no 2º Ofício do Registro de Imóveis, à fls. 263 do Livro 3/AD, sob nº 32.908.

Art. 2º - O imóvel, objeto da doação, destina-se à regularização dos posseiros da “Vila da Palha”.

Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

GABINETE DO PREFEITO DE PELOTAS, EM 13 DE MAIO DE 1982.

Irajá Andara Rodrigues
Prefeito








Trabalho Acadêmico apresentado à Faculdade de Administração e de Turismo da Universidade Federal de Pelotas, como requisito à obtenção do título de Bacharel em Turismo.

Orientadora: Profª Msc Carla de Ávila








PELOTAS, DEZEMBRO DE 2009





























BANCA EXAMINADORA:
Maria da Graça Ramos
Carla Silva de Ávila
Guilherme Peglow Klumb


Agradecimentos

Ter ingressado no curso de bacharelado em turismo da UFPEL foi algo que ocorreu por acaso, em decorrência do meu ingresso no curso técnico de hotelaria e turismo do Uni Colégio em 2003, estando no referido curso, apaixonei-me pela ciência do turismo, muito bem apresentada a mim pelo amigo Daniel Botelho. Encontrei-me na UFPel com pessoas que mudariam minha forma de compreender o mundo e aos terráqueos que nele habitam, a esse grupo de amigos demos o nome de “Fives do Turismo”, inicialmente Diego Boeno, Guilherme Klumb, Matheus do Amaral, Maurício Menezes e eu. A esse grupo somaram-se Itamara Mezzalira, Valquíria Sgarbi, Alan Fagundez, Teobaldo Jr., Luis Jr., Marcos Cruz e Vinícius Ebersol. Nesta trajetória tive a alegria de aprender, brigar, sorrir e faltar às aulas de pessoas especiais, quais sejam Letícia Mazuchi, Renata Brauner, Dalila Müller, Urânia Sperling, Alcir Bach, Mario Osório Magalhães, Nara Nilcéia Santos, Maria da Graça Ramos, Flávia Rieth e Franciane Dias. Dentro do grupo de professores do pré-vestibular destaco Edir Vieira Filho, mentor de muitas pessoas que lutam por um mundo menos desigual. Mundo que conheci desde minha infância na periferia da cidade de Pelotas, onde fui educado de forma exemplar pela Avó Antonia, Tias Ineida, Neiva, Orocilda, Izolda, Tios Paulo e Luis, sem falar do meu querido Avô Paulino e minha mãe Daisi. Por eles fui forjado e se não sou um homem melhor é por minha culpa mesmo! Neste berço dividi muitos cafés nas tardes de domingo com Diego Dias, Everton Canez e Mauro Mesko, irmãos de alma que sempre me incentivaram e também têm sua cota de responsabilidade pela conclusão deste trabalho.
Ao término do curso destaco a força que tive de novos e grandes amigos, companheiros de trabalho, Banda Soul da Silva, Alexandre Sabany, Patrícia Stone, Fábio Riemke, Júlio Piedras, Herotildes Moura, Mariana Galindo, Robson Corrêa e muitos outros. Meu agradecimento não menos especial à turma que começou em 2004 a transformar um pós-adolescente que reiniciava sua vida, seria a ATT 2008 caso não houvesse fragmentação a partir da mudança de currículo. Uma lista que começava com Alina e terminava com Waleska, ali começava uma paixão pelo turismo sustentável que nunca terminará. Uma paixão quase comparável à que tenho por minha esposa Juliana Vaniel e nossa pequena Beatriz, fenômeno que acreditamos ser amor. Um amor quase comparável ao idealismo em termos um turismo para todos, democrático, num eterno ato de viajar.























Este trabalho é dedicado à memória de Marcelo Barbuza, Claudionor Bueno Conceição e Rogério Borges Silva, amigos que de alguma forma sempre assistirão minhas vitórias e iluminarão meus caminhos nos momentos de incerteza.































“Viagem boa a gente não enjoa de esquecer que um dia vai voltar” (Viajei – Vitor Ramil, 2007).

“Equivoca-se quem pretende que já não existe espaço para a utopia. Esse é o desafio maior que enfrenta a nova geração: convido-a a assumi-lo sem temores.” (Celso Furtado, 2002).





1 – INTRODUÇÃO

Estudar o turismo e todo o universo de ciências que ele abrange, das quais se apropria e com as quais dialoga é um exercício que se mostra fascinante, porém existe um campo do conhecimento que desperta inquietação naqueles que dedicam seus estudos ao elemento humano: o campo das ciências sociais, ramo do conhecimento que foca o estudo do homem através da pesquisa metodológica; é a partir do aprofundamento da pesquisa e da leitura nessa área que temos condições de analisar e avaliar o mundo que nos cerca, a partir deste prisma teórico o turismo abandona seu estereótipo que o limita ao universo das viagens, dos pacotes, do lazer, surpreendendo quem se dedica ao estudo deste fenômeno e lhe apresenta a diálogos inusitados, quais sejam ética, responsabilidade social, democracia no turismo, turismo endógeno, aspectos psicológicos, propaganda, antropologia e etc.
Durante o curso atuei como estagiário na Pousada de Charme Charqueada Santa Rita, na cidade de Pelotas, de novembro de 2006 a março de 2008, local que recebe turistas, visitantes, estudantes, acadêmicos e celebridades. Local onde se realizam eventos sociais como casamentos, reuniões de negócio, filmagens, aniversários, etc. Nesse período, e tendo como base teórica os ensinamentos apreendidos no curso de bacharelado em turismo da Universidade Federal de Pelotas, fui observador da realidade da comunidade local, suas relações com o patrimônio, relações essas geralmente hostis e desrespeitosas ou de total desinteresse e da mesma forma, da relação da empresa com essa comunidade local que igualmente é anfitriã. Além disso, observei as ações do poder público para com ambos os atores, cenário que pretendo apresentar neste trabalho.
Sempre que se aborda a história de Pelotas, inclusive a história do Rio Grande do Sul (Kuhn, 2002; Pesavento, 1980), tem-se como elemento significativo o advento da economia do charque, fenômeno que legou à sociedade atual um patrimônio arquitetônico diferenciado e valorizado por sua grandiosidade e refinamento dos detalhes, bem como a estrutura e paisagem urbana, economia que colocou pelotas entre as quatro principais cidades da província. Outro fator de grande importância é a relação da cidade com a cultura, no que se refere ao campo das artes, e a política, decorrente também da grande influência das oligarquias surgidas no último quartel do século XIX, o fator cultural é conseqüência de dois fenômenos quais sejam: a grande diversidade étnica trazida por portugueses, africanos e imigrantes ítalo-germânicos além do trânsito de atrações artísticas pelos teatros e grandes residências onde era comum a prática dos saraus; a questão política teve destaque pela participação das oligarquias nos principais movimentos reivindicatórios da época, a destacar a guerra dos farrapos onde a tributação sobre o charque, a carne conservada através do sal cujo núcleo se encontrava na cidade de Pelotas, foi um dos principais motivos pelo desencadeamento da campanha farroupilha, para essa análise contribui o exposto por Magalhães (1993, s.p.),


Em resumo: às vésperas da Revolução Farroupilha, esses quatro municípios centralizavam a atividade econômica da Província, sem que se pudesse atribuir a qualquer deles uma hegemonia evidente. Havia dois eixos: o eixo Pelotas–Rio Grande, verdadeiro núcleo pecuarista da Campanha, desenvolvendo respectivamente a industrialização e a exportação de produtos pecuários; e o eixo Porto Alegre–Rio Pardo, especializado no transporte e comercialização de gêneros produzidos no interior e na colônia (lembre-se que a primeira leva de alemães já havia imigrado em 1824).



Decorrentes desse desenvolvimento existem também os fatores negativos, muito comuns do sistema capitalista como a desigualdade, o preconceito social e étnico, a degradação do meio-ambiente e a concentração de riqueza nas mãos de uma minoria mais abastada, minoria esta que via de regra dita o discurso historiográfico a partir de seus interesses e ponto de vista. Segundo Al-alam (2008, p.35),


Desde o século XIX até os dias atuais, temos escritores, ou memorialistas, empenhados em demonstrar aos homens do futuro a importância desta hoje populosa cidade da zona sul (...). Para estes memorialistas, a história local prescindia de notas e dados sobre a vida dos populares, das pessoas ditas comuns. O que importava eram os grandes homens, os grandes atos, descartava-se a vida cotidiana das ruas.


Esse sistema resistiu à decadência do citado ciclo e se multiplicou, deixou reflexos, impôs diferenças e distância entre a comunidade local do atual bairro onde hoje se encontram as antigas e desativadas charqueadas, ergueu muros que separam a comunidade local não só física, mas também cultural e educacionalmente; Destacamos aqui a provável antipatia dos escravos em relação aos antigos senhores, afirmada por Ribeiro (2009, s.p)


Havia também a resistência de cativos ao sistema imposto, apesar de a historiografia brasileira tratar muitas vezes o trabalhador escravizado como agente passivo ao sistema escravista. Foram formas de resistência ao trabalho escravizado: a apropriação de bens, o suicídio, a quebra de instrumento de trabalho, os ataques aos proprietários e seus familiares.


O professor Mario Maestri (1984, p. 114) em sua obra O Escravo no Rio Grande do Sul, também aborda o tema, trazendo o aspecto acadêmico e a dificuldade de fontes precisas sobre alguns acontecimentos da época, reafirmando a questão da resistência e contestação do regime


A resistência do escravo à escravidão é um fato histórico. Está determinada e, também, determina as grandes tendências de nossa história. Só assume toda a sua significação nesse mesmo quadro histórico. O nível de desconhecimento sobre o escravismo gaúcho obriga-nos, no entanto, a tentar uma abordagem geral, quase a-histórica; a tentar delinear nada mais do que os traços gerais desse processo. Só feito esse trabalho é que podemos partir pra um tratamento específico e monográfico dos diferentes momentos desse conjunto.


Alguns ataques permanecem até hoje, onde os atores, de forma não tão hostil, passaram a ser os moradores do entorno das referidas propriedades que demonstram de diversas formas que serão expostas neste trabalho, sua falta de afinidade, a falta de noção de pertencimento ao contexto histórico no qual estão inseridos, uma falta de identificação com o ambiente que não parece estar próxima de ser superada, visto que também não se tem observado ações que possam minimizar a distância, seja por parte das entidades gestoras político e adminstrativas públicas ou privadas – prefeitura, associações de classe, convention bureau, etc. ou também das organizações não governamentais, entidades de classe, clubes e demais centros de convívio social existentes na comunidade. Portanto o presente trabalho também visa analisar, identificar possíveis fatores responsáveis e propor soluções racionais para minimizar os aspectos negativos que possam ser encontrados e maximizar os aspectos positivos da mesma forma, tendo como objeto de estudo as relações em impressões da Vila Saint-Hilaire (ou Vila da Palha). Além disso, propõe-se uma abordagem que tenha como referência o aspecto cultural que norteia o negócio turístico no município e suas problemáticas em relação à sociedade local, analisando aonde pode nos levar o debate sobre turismo cultural caso não esteja estabelecida uma identidade ou identificação, um conhecimento do seu patrimônio material e imaterial; Mais do que isso, que turismo cultural pode existir se não existir nos residentes uma prática cultural notável e visível, um gosto real pela cultura em suas mais variadas práticas, nos diversos níveis sociais e econômicos?







Figura 1 – Lixo junto à cerca, entrada principal Figura 2 – Acúmulo de entulhos próximo à
da Charqueada Santa Rita. entrada da Charqueada São João.
Fonte: Elaborada pelo autor. Fonte: Elaborada pelo autor.

Surge também a dúvida sobre a possibilidade de se vender aos viajantes uma cidade-cultura como produto turístico sem que os habitantes locais não tenham essa concepção. Nosso questionamento se dá a partir de uma crítica buscada junto a um dos pilares do turismo sustentável: a participação da comunidade local. Colabora para essa concepção a idéia de Dias (2006, p. 28)


O fator humano é essencial, são as pessoas – visitantes e residentes – que dão vida e significado ao turismo. Nessa ótica, uma cultura turística sempre remete à participação das pessoas na busca de melhores condições para tornar essa atividade possível como forma de gerar benefícios à comunidade. Pode-se considerar a cultura turística como parte de cultura mais geral da sociedade, orientada ao conhecimento e à valorização dessa atividade, que busca a satisfação do visitante e a obtenção de mais benefícios para as comunidades receptoras.


Pelotas é uma cidade singular em vários sentidos, não é possível no município, por exemplo, a invenção de uma referência ou tradição ligada a um tipo de imigração referente a um determinado país de origem. A cidade recebeu durante os séculos XIX e XX, cidadãos que emigraram da Itália, França, Alemanha, Inglaterra, além dos escravos africanos e não obstante os portugueses colonizadores e charqueadores que eram os que ditavam todas as regras culturais na região desde os fins dos anos 1700; temos, portanto, uma diversidade de hábitos e tradições muito ampla e a erudição como elemento de glamourização cultural de uma minoria; sabemos que o limite de aceitação desse aspecto é pouco abrangente e que a cultura popular, a cultura das grandes massas, é o que dá uma identidade para o local. Surge mais um questionamento: Que cultura, enquanto tida como produto turístico, pode ser vendida para os habitantes de Pelotas e aos estrangeiros? Para contribuir na busca por uma resposta trazemos o exposto por Anjos (2000, p. 68)


Toda a Serra dos Tapes (a oeste da cidade, grifo nosso) foi dividida em pequenas propriedades, as picadas multiplicavam-se e nelas o movimento crescia. Estabeleceu-se ali uma corrente de imigrantes, que geralmente não chegavam diretamente da Europa. Eram originários das colônias situadas mais ao norte do Rio Grande do Sul, sendo na sua maioria alemães. Mas afluíram para lá também espanhóis, austríacos, franceses e italianos, muitas vezes vindos de outra província.


Entendo que o que temos de positivo pode ser nosso ponto fraco e vice-versa: As variadas etnias aqui existentes colaboram para a diversidade artística e arquitetônica, por exemplo, mas também, pela sua amplitude de abrangência, criam dificuldades para quem se acostumou a trabalhar no mercado turístico como algo que só possa ser promovido a partir de um único tema, a citar: pomeranos no município de São Lourenço do Sul, Italianos na região da Serra Gaúcha, alemães em Santa Cruz do Sul e outros exemplos de culturas como produto turístico que geram dividendos e atraem turistas de diversos locais pelo mundo afora. Surge aqui um desafio, portanto, aos profissionais que pretendem se dedicar ao marketing turístico em cidades de temáticas étnicas pluralmente complexas, justamente o caso da cidade de Pelotas.
Tendo-se alguns aspectos da questão cultural pelotense expostos e o panorama histórico da cidade esboçado, buscaremos compreender as relações entre a comunidade da Vila Saint-Hilaire (Vila da Palha) e as charqueadas que a delimitam. É conveniente esclarecer que o fator de motivação a estudar o fenômeno turístico naquela região é o fluxo de visitantes conseqüente da divulgação proporcionada pela minissérie A Casa das Sete Mulheres, iniciativa da Rede Globo de Televisão, que utilizou a Charqueada São João como cenário e a pousada da Charqueada Santa Rita como meio de hospedagem. Até então essas propriedades eram residências particulares que eventualmente recebiam pesquisadores, estudantes e curiosos. A minissérie, veiculada no ano de 2003, tem o caráter de divisor de águas na recente história do turismo receptivo da cidade de Pelotas. As localidades vêm se adequando ao longo do tempo, porém, aparentemente, sem projetos ou iniciativas que incluam a comunidade; Abrem-se as portas para os turistas e se erguem os muros para os vizinhos, exceto para aqueles que tenham dinheiro para utilizar os serviços, característica de uma lógica de mercado praticamente medieval; Teme-se que a riqueza histórica presente na região assuma cada vez mais o antigo aspecto oligárquico e aristocrata que, inevitavelmente, após décadas gloriosas, encontrou sua decadência e o abandono. contrariando importantes capacidades que o turismo tem, como por exemplo, aproximar pessoas e reduzir a pobreza, proporcionar desenvolvimento, emprego, renda e valorização da cultura e o meio ambiente. Para comprovar cientificamente o que foi observado busca-se a pesquisa de campo para descobrir o quanto tal visão possa estar equivocada.

1.2 – OBJETIVOS

O presente trabalho tem como objetivo geral:
- Perceber a relação entre a comunidade local, especificamente os habitantes da Avenida Auguste de Saint-Hilaire no trecho denominado Vila da Palha, e as charqueadas entre as quais este trecho é delimitado: Charqueada São João e Charqueada Santa Rita na cidade de Pelotas, bairro Areal, expondo seus aspectos sociais, econômicos e culturais.

Estes objetivos desdobram-se nos seguintes objetivos específicos:

- Buscar, através da história oral, visto que as fontes escritas são escassas, um levantamento histórico da Vila da Palha.
- Elencar aspectos positivos e negativos na dinâmica do turismo na localidade.
- Verificar o grau de informação da população estudada no que tange a história, patrimônio, cultura e a preservação destes aspectos.
- Traçar um perfil sócio-econômico dos habitantes da localidade estudada.
- Verificar a existência de comprometimento das empresas turísticas da localidade para com a sustentabilidade, responsabilidade social e ambiental

2 – METODOLOGIA
O presente trabalho será realizado na comunidade da Vila da Palha, conjunto de residências que compõem a parte da Avenida Auguste de Saint-Hilaire que se encontra entre a Charqueada Santa Rita e Charqueada São João, no Bairro Areal, tendo por limite a margem esquerda do Arroio Pelotas e a Estrada da Costa, no município de Pelotas.
Para que se alcancem os objetivos propostos neste trabalho, será realizada uma pesquisa em nível exploratório, considerando ser esta a melhor forma em função das limitações de tempo decorrentes de vários fenômenos extra-acadêmicos. Para Gil (1999, p.43)
As pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver-se, esclarecer e modificar conceitos e idéias. Tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores. De todos os tipos de pesquisa, estas são as que apresentam menor rigidez no planejamento. Habitualmente envolvem levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso.

Desta forma trabalharemos no intuito de esclarecer como a comunidade local se relaciona com o turismo desenvolvido na região, compreendendo sua relação com as charqueadas que fazem parte do seu entorno. Tendo-se como fator preponderante a questão ligada ao desenvolvimento do turismo e a participação local, consideramos de extrema relevância o estudo pretendido. A pesquisa exploratória terá o papel de esclarecer visões pré-estabelecidas; de acordo com Gilberto Velho (1994, p. 126)
O que sempre vemos e encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido e que não vemos e encontramos pode ser exótico, mas, até certo ponto, conhecido, No entanto, estamos sempre pressupondo familiaridades e exotismos como fontes de conhecimento ou desconhecimento, respectivamente.

A abordagem qualitativa da pesquisa é a mais adequada para o caso, pois, segundo Denzin e Lincoln (2000) apud Cesar (s.d, s.p)
A abordagem qualitativa tem sido frequentemente utilizada em estudos voltados para a compreensão da vida humana em grupos, em campos como a sociologia, antropologia, psicologia entre outros das ciências sociais. Esta abordagem tem tido diferentes significados ao longo da evolução do pensamento científico, mas se pode dizer, enquanto definição genérica, que abrange estudos nos quais se localiza o observador do mundo, constituindo-se, portanto, num enfoque naturalístico e interpretativo da realidade.

As atividades que delinearão o presente trabalho serão os seguintes:

a – Pesquisa Bibliográfica sobre os conceitos trabalhados que possibilita a confirmação de dados obtidos através de história oral ou observação pessoal; De acordo com Gil (1999. p. 65)
A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fator de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. (...) também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários.

b – Estudo de Caso dentro da comunidade da Vila da Palha. Temos em Gil (1999, PP. 72-73) que “O estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado, tarefa praticamente impossível mediante os outros tipos de delineamentos considerados.” Corrobora com essa afirmativa a posição de Yin apud Gil (1999, p. 73) “o estudo de caso é um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro do seu contexto de realidade; quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claramente definidas e no qual são utilizadas várias fontes de evidência.” Considerando o exposto chegamos à conclusão de que essa técnica é a que mais proporciona o alcance dos objetivos propostos nesse trabalho.
O estudo de caso pode envolver exame de registros, observação de ocorrência de fatos, entrevistas estruturadas e não-estruturadas ou qualquer outra técnica de pesquisa. O objeto do estudo de caso, por sua vez, pode ser um indivíduo, um grupo, uma organização, um conjunto de organizações ou até mesmo uma situação. (Dencker, 1998, p. 127)

c - Entrevista, fator importante para a coleta de dados, desdobramento do estudo de caso acima justificado.


3 – REFERENCIAL TEÓRICO

O turismo é um tema que vem sendo analisado há bastante tempo, desde que surgiu a discussão sobre a oposição entre trabalho e tempo livre ao final do século XIX, tendo como referência as idéias de Paul Lafargue e Karl Marx, momento em que se falava na importância do lazer ou do “direito à preguiça” e também época do auge do Grand Tour, uma espécie de turismo que consistia em viagens na busca de conhecimento, limitado às famílias mais abastadas; porém é após o término da segunda grande guerra que a modernização dos transportes possibilitará um aumento exponencial do número de viagens e sua conseqüente abrangência em relação ao acesso da classe média a pratica das viagens. Atualmente o conceito oficial de turismo, considerando-se o fator institucional hierárquico, é estabelecido pela OMT / ONU (1994) que define da seguinte forma


Turismo é uma atividade que consiste no deslocamento temporário de pessoas fora de seu lugar habitual durante períodos de tempo variáveis, por um período de tempo menor do que 12 meses e cuja finalidade ao viajar seja alheia ao exercício de uma atividade remunerada no lugar que visite.


Contudo, diversos autores foram mais longe na conceituação do turismo, trazendo ao estudo outras abordagens e a análise epistemológica do fenômeno no que se refere aos campos do conhecimento e da vida do homem, o aspecto social é trazido por Padilha (1994, apud Dias, 2006, p.10) que define turismo como


Um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivo de recreação, descanso, cultural ou saúde, se deslocam de seu lugar de residência habitual a outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural.


Por se tratar essencialmente de uma prática de lazer que inclui a viagem, que via de regra desencadeia socialização, o turismo deve ser compreendido como atividade econômica, responsável por movimentar significativas somas em capital nas localidades onde esse ocorre, de acordo com o exposto por Urry (2001, p.17)


O turismo é uma atividade de lazer, que pressupõe seu oposto, isto é, um trabalho regulamentado e organizado. Constitui uma manifestação de como o trabalho e o lazer são organizados, enquanto esferas separadas e regulamentadas da prática social, nas sociedades “modernas”.


Reforçando o ponto de vista econômico e trazendo o aspecto político da dinâmica do turismo, colaboram para a análise as afirmações da professora Luzia Coriolano:

O turismo é entendido como uma atividade econômica bastante expressiva da contemporaneidade, por envolver os espaços naturais e produzidos pelo trabalho e também as pessoas, as que podem viajar e as que recebem os visitantes, ou seja, os turistas e os residentes. Os produtores dos serviços turísticos e os espaços são alvos de políticas públicas e privadas, políticas oficiais e alternativas, denotando a magnitude e a expressividade dessa prática. (2006, p.16)

O turismo e as sensações com as quais os turistas se deparam é um dos grandes focos do trabalho de John Urry, o autor é responsável por diversos estudos que colocam o turismo como sendo um produto variável, problemático, onde o turista pode ser vulnerável e ao mesmo tempo predador, segundo ele “o devaneio e a expectativa, ambos disfarçados, são processos para o consumismo moderno” (1996, p.29).
Repensando o exposto por Urry, na citação acima, podemos ter como foco de raciocínio não o turista e sim o residente do local visitado, que está muito mais suscetível às conseqüências desfavoráveis e negativas da prática turística do que o viajante que, obviamente, corre o risco de ter como prejuízo o investimento nos serviços contratados, porém, seu local de residência permanecerá intacto.


Tem havido poucas evidências até agora de que os turistas estejam muito interessados no conceito de turismo sustentável, além da preocupação natural com a qualidade do meio ambiente das localidades de férias por eles freqüentadas. [...] Talvez, os turistas que levam a sério o desenvolvimento sustentável em suas vidas diárias acreditem que suas viagens anuais de férias são o único momento em que podem se comportar hedonisticamente, sem a necessidade de serem responsáveis. (Swarbrooke, 2000. p.16)


Há que se refletir sobre a degradação muito freqüente das localidades contempladas com o turismo de massa que, até os anos noventa do século XX, por conta da falta de planejamento sustentável, tiveram paralelamente ao fluxo intenso de estrangeiros, impactos ambientais, choques culturais, prostituição, exploração imobiliária e etc. Muitas destas localidades se depararam com o fracasso de seus empreendimentos que, ao priorizar o lucro imediato, contribuíram para a destruição, por exemplo, da paisagem, através de construções não planejadas, e degradação da paisagem. Contribui para este raciocínio a relevante afirmação de Luis Moretto Neto que diz


Em muitas localidades da terra, o fomento da atividade turística, por parte de dirigentes públicos, empresariais ou mesmo das comunidades envolvidas, assume características de monocultura econômica, com impactos [...] negativos, seja através da captação quantitativa de fluxos, na operação temporal irregular, na incorporação de valores e referências de outros grupos e espaços, sem a observância de quaisquer limites. É a lógica de mercado. (Revista Brasileira de Administração. Ano X, nº 30. 2000, p.36)

Portanto, é essencial ao planejamento turístico, ter-se conhecimento do conceito de turismo sustentável, trazido oficialmente pela OMT, Organização Mundial do Turismo (2008, s.p.), que define o turismo sustentável como “aquele ecologicamente suportável em longo prazo, economicamente viável, assim como ética e socialmente eqüitativo para as comunidades locais.”


A sustentabilidade deve integrar todas as políticas de turismo como uma estratégia de desenvolvimento, de modo a evitarem-se modelos ultrapassados como a formação de ilhas ou bolhas territoriais isoladas de turismo, que contribuem para a marginalização da comunidade residente. As novas tendências, que remetem a uma perspectiva de desenvolvimento turístico sustentável, buscam uma relação mais próxima dos visitantes com a cultura, com a natureza e com a população local, a fim de ampliar-se a oferta de atrativos e diminuir-se a natureza sazonal da atividade. (Dias, 2006. p.08)


Outro aspecto do turismo cujo conceito ainda é discutido é o que dá conta do fomento turístico a partir da própria localidade ou no interior dela, onde os residentes entram em contato ou utilizam serviços, instalações e toda a infra-estrutura; entendemos que a sustentabilidade do turismo pode ocorrer a partir do momento em que se democratiza o acesso ao mesmo. Caso nos proponhamos a desconstruir os conceitos clássicos estabelecidos poderemos afirmar que o turismo pode ser identificado no simples ato de se deslocar para uma área estranha ao indivíduo, numa experiência claramente antropológica. A literatura existente contempla esse pensamento que se opõe ao turismo de massa.
A atividade turística desenvolvida de maneira sustentável pode trazer muitos benefícios para a comunidade receptora, mas conseguir implementar o turismo de base comunitária tem sido um grande desafio para os gestores da área, uma vez que se vêem modelos de desenvolvimento turístico que descaracterizam a cultura local e promovem a exclusão social e econômica das comunidades residentes.
(Tavares e Carvalho, 2008, p. 04)

Sendo assim o turismo poderá ocorrer de um bairro da cidade para outro, tal fenômeno dificilmente será medido, entretanto teremos, possivelmente, consumidores locais disputando espaço com turistas. Dias afirma que
“Embora os dados estatísticos sejam escassos, é facilmente observável o crescimento do turismo doméstico no Brasil. Com o aumento de linhas de crédito, com o barateamento do transporte aéreo e com a melhoria da infra-estrutura rodoviária, aumentam as viagens de longa e média distância(...)”(2006, p. 213)

Avançando no pensamento acerca do caráter doméstico do turismo encontramos em Beni (2006, p.36) uma visão que se soma à idéia do abandono da postura passiva quanto à interação-participação da comunidade local nas atividades ligadas ao turismo.
O desenvolvimento endógeno consiste em um enfoque territorial do desenvolvimento e do funcionamento do sistema produtivo. O território é um agente de transformação, não mero suporte dos recursos e atividades econômicas, pois existe interação entre as empresas e os demais atores, que se organizam para desenvolver a economia e a sociedade.

Considerando as duas abordagens, doméstica e endógena, partimos para a reflexão cuja pergunta encerra em si a própria resposta: Não é factual que para a comunidade desenvolver um pensamento turístico seria coerente oferecer a própria prática do turismo, o passeio breve ou a viagem? O distanciamento do local de origem pode levar ao estranhamento e a valorização ou descobrimento de características singulares de uma determinada localidade.
A preocupação em compreender e se colocar no lugar do “outro” fez com que os antropólogos cultivassem um estranhamento diante dos fenômenos observados em outras culturas, Esta atitude de estranhamento, não só com o que ocorria à sua volta, mas com eles próprios, permitiu que os antropólogos questionassem e captassem fenômenos que de outra maneira talvez passassem desapercebidos. (Oliven, 1987, p. 11)











4 AS CHARQUEADAS E A VILHA DA PALHA, ASPECTOS GERAIS.

4.1 A Charqueada de Ignácio Rodrigues Barcelos – atual Charqueada Santa Rita:


A empresa de salga de carne de Ignácio Rodrigues Barcelos foi fundada em 1826 e foi uma das sete empresas desta família. Quando foi inaugurada já transcorriam 47 anos de produção do charque, em atividade desde 1779 quando José Pinto Martins estabeleceu a primeira charqueada na então Freguesia de São Francisco de Paula (atual município de Pelotas), às margens do Arroio Pelotas. É o “Ciclo do Charque” que irá lançar nossa cidade como capital econômica e cultural da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul durante todo o século XIX. De acordo com Marques (1990, p. 27):

A indústria se instalou, definitivamente, no Rio Grande do Sul (...) no ano de 1779. Desde então, graças à ampliação do mercado consumidor de charque, devido ao desenvolvimento da lavoura, no Centro e Norte do país, foram-se multiplicando as charqueadas de Pelotas, resultando num único centro produtor de charque, situação que perdurou por pouco mais de um século.








Figura 3 – Vista da Sede da Charqueada Figura 4 – Bloco de suítes da pousada de
Santa Rita [atual residência dos proprietários] charme. Tijolos unidos por barro.
Fonte: Elaborada pelo autor. Fonte: Elaborada pelo autor.

Durante sua trajetória a empresa foi sendo mantida hereditariamente, tendo em torno de 30 escravos, o que denota um volume não muito grande de produção se comparado a outros empreendimentos que contavam com, no mínimo, o triplo de cativos. A falta de documentos e relatos por parte da família de Inácio Barcellos faz com que não tenhamos muitos dados concretos sobre a história da propriedade. Sabe-se que esta ainda manteve-se durante a decadência da produção através do fabrico de língua em conserva enlatada, produto este que era exportado em quantidades significativas; porém as atividades das charqueadas pelotenses de forma geral irão se encerrar ao final dos anos 30, devido ao advento da refrigeração e o conseqüente consumo da carne fresca, além da própria alteração da cultura gastronômica brasileira, pois somando-se ao consumo da carne resfriada temos a influência das grandes massas de imigrantes da Europa que aqui introduziram a carne suína, embutidos, hortifruti granjeiros e de aves. A propriedade fica abandonada e suas quase ruínas são adquiridas nos anos sessenta por Geraldo Mazza, rico comerciante, que a presenteia a sua segunda esposa para residência de verão. O saladeiro – galpão de alvenaria onde a carne encontrava-se com o sal vindo da Espanha – passa a ser a sala da residência, ficando a antiga sede a disposição dos funcionários para moradia, surge o nome Santa Rita. No final dos anos oitenta é vendida à família Cunninghan que reforma e passa a residir na antiga sede. Em 1990 a família Clark adquire a propriedade e no início do novo século passa a trabalhar na área de eventos alugando o antigo saladeiro para realização de casamentos, formaturas e etc. Em 2005 o projeto da pousada de charme é concluído e passa a atuar de forma mais abrangente na área do turismo com três produtos: A hospedagem, o salão de eventos e a visitação guiada.


- A hospedagem: conta com seis suítes que foram aperfeiçoando-se através do tempo, de acordo com o retorno do investimento. Estas são decoradas com móveis de época restaurados, ladrilho hidráulico e azulejos alemães nos banheiros, tábua corrida nas suítes, mármore italiano de carrara, espelhos bisotê e outros atributos que remetem o hóspede ao século XIX. Esta rusticidade é combinada com as necessidades tecnológicas que a vida moderna exige, quais sejam: ar-condicionado, telefone, internet de alta velocidade, televisor colorido, reprodutor de digital-video-disc, cofre com senha eletrônica programável, calefação com radiadores, secador de cabelos e etc. Além do conforto das acomodações o hóspede conta com café da manhã em sala com vista para o Arroio Pelotas, passeios de bicicleta, caiaques, canoa canadense, cavalos, barco e jogos de mesa em sala de convivência com lareira.

- O salão de eventos: tem capacidade para 150 pessoas e somente é locado para eventos particulares (formaturas, casamentos, aniversários, conferências, reuniões de trabalho, entre outros) onde não haja a venda de ingressos. Disponibiliza-se aos contratantes mesas, cadeiras, jardins do entorno do salão e serviço de limpeza.

- A visita orientada: é o terceiro produto, onde através de passeio pela propriedade se conta a história da produção do charque, suas causas e conseqüências e contextualização no panorama estadual, nacional e internacional, através de informações pesquisadas em extensa bibliografia. Durante cerca de 50 minutos o monitor acompanha os visitantes, concluindo a caminhada no Museu do Charque que possui doações da produção do filme Concerto Campestre (2003), maquete de uma charqueada e peças de vestuário, réplica de uma pelota, peças avulsas e reprodução de xilogravuras da série Xarqueadas, do artista Danúbio Gonçalves.

4.2 A Charqueada de José Gonçalves Chaves – Charqueada São João

Construída no ano de 1810, a charqueada de Antônio José Gonçalves Chaves, um dos mais prósperos e influentes empresários da época, é um grande acervo arquitetônico da época colonial, teve notoriedade histórica por ter sido meio de hospedagem do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire durante sua passagem por este território, tendo este viajante colaborado com seus relatos para a escassa bibliografia existente sobre o passado do município. Foi um dos locais de conspiração da causa farroupilha, de onde saíram os projetos, por exemplo, da construção da primeira embarcação a vapor do Brasil, a barca Liberal, que navegou nas águas do Arroio Pelotas e Canal São Gonçalo a partir do ano de 1833.








Figura 5 – Sede da Charqueada São João Figura 6 – Pátio Charqueada São João
Fonte: Erich Macias. Acervo Pref. Mun. Pelotas Fonte: Álbum Público de Vladi – internet ¹

A guerra civil começaria dois anos depois, fazendo com que o proprietário desta próspera empresa, um abolicionista e possuidor de uma das maiores bibliotecas da província, se exilasse no Uruguai aonde viria a morrer acidentalmente. Gonçalves Chaves é autor do primeiro tratado sobre economia no Brasil, o livro Memórias Ecônomo-Políticas, de 1822. De acordo com Gutierrez
Era uma figura ímpar entre seus pares. Principalmente, pelo pioneirismo de seus escritos, tanto no que se refere à data de publicação, 1822, como também, pelas críticas e idéias que divulgava. Defendia o fim do regime escravista; apostava nos princípios do liberalismo econômico; censurava as elites locais e os representantes da coroa lusa. (1993. p.129)
¹ - http://picasaweb.google.com/lh/photo/0pAeph7WUI3-iVrSzOVCvg
Seus filhos e netos herdaram a próspera charqueada que no século XX pertenceu ao francês João Tamboridengui que notoriamente, pioneiro como o fundador da Charqueada São João, adotou a mão-de-obra livre de seus patrícios franceses numa de suas charqueadas antes da libertação dos escravos no ano de 1884, ao se inventariar a propriedade de José Gonçalves Chaves, registrou-se a presença de aproximadamente cinqüenta e três cativos.
Nos dias atuais a propriedade pertence à família Mazza, que também foi proprietária da Charqueada Santa Rita a partir dos anos 60 do século XX, da mesma forma pertenceu-lhes a Charqueada de Bernardino Barcellos ao lado da atual ponte que leva até a praia do Laranjal. Desenvolve-se na Charqueada São João o turismo com visitações e passeios de barco, além do esporte através do aluguel do campo de futebol; Pode-se, também, alugar as instalações para eventos sociais.

4.3 A Vila da Palha
A avenida Auguste de Saint-Hilaire, popularmente conhecida como Vila da Palha é uma pequena comunidade com aproximadamente cento e vinte residências que tem seu limite norte com a Estrada da Costa, limite sul com o Arroio Pelotas, ao leste se limita com a Charqueada São João e a oeste com a Charqueada Santa Rita. A comunidade é atendida pelas redes elétrica, telefônica, água potável e esgotos. As famílias em sua maioria são integradas por trabalhadores assalariados que atende a demanda de empresas da região, quais sejam empresas fabricantes de adubos, biscoitos, transporte coletivo, comércio e etc. De acordo com o observado é possível afirmar que a comunidade não está inserida em nenhuma atividade turística que é fomentada pelas duas charqueadas limítrofes; no trabalho realizado durante o período de estágio curricular na Charqueada Santa Rita e a freqüente comunicação e contratação de alguns serviços junto à Charqueada São João pude observar que o público do entorno não se envolve ativamente, salvo a exceção de uma das funcionárias mais antigas ser moradora da comunidade da Vila da Palha. No entanto não são raras as ocasiões em que os habitantes prestam auxílio aos viajantes que erram o caminho até os pontos turísticos, adentrando a avenida Auguste de Saint-Hilaire que também é um dos endereços da Charqueada Santa Rita Pousada de Charme.













Figura 7 – Imagem de satélite da comunidade da Vila da Palha
Fonte: Google Maps (www.maps.google.com)

A Vila da Palha surgiu a partir de uma ocupação irregular que passa a acontecer em meados de 1955 quando o Sr. Ferreirinha – alcunha de José Ottoni Ferreira Xavier, proprietário daquele terreno e de praticamente todo o Balneário dos Prazeres (Barro Duro), cede um lote para que a família a se instalar passe a tomar conta da preservação e manutenção da propriedade. Outras famílias passaram a se instalar na propriedade, esse fenômeno se deu por dois motivos simultâneos: o êxodo rural e a industrialização urbana desencadeada no início do século XX.

A Fábrica de Adubos e Produtos Químicos foi instalada em 1912, no Areal. O total das farinhas, ou seja, 7.394.300 quilos, e a graxa industrial, 129 mil quilos, foram vendidos em 1921, neste Estado, e a cola, 1.396.500 quilos, para os portos do Norte e repúblicas do Prata. (Osório, 1998. p. 437)

No ano de 1982, dado o expressivo número de residências, é promulgada a lei 2.709 (anexo 1) que trata da oficialização da doação do terreno na data que, propositadamente ou não, coincide com o dia da abolição da escravatura.
Na mesma obra Fernando Osório relata a existência de mais de cinqüenta fábricas cujos ramos variam de produtos farmacêuticos a derivados do tabaco, chapéus, tecidos, sabão, olarias, etc. Atividade que captou bastante mão-de-obra foi o trabalho nos pomares da família Rheingantz, na localidade da então desativada charqueada do Barão do Jarau na margem oposta do Arroio Pelotas. É desta época a construção da ponte de madeira que permitia a travessia para o outro lado do arroio, promovendo o acesso que antes se dava através do uso da balsa da família Assumpção (Lazzaroto, 2009, p. 03).
Nesta época eram escassos os meios de transporte coletivos, viria nas décadas seguintes o prolongamento das linhas do ônibus e do bonde a partir do centro. Até então a região era pouco habitada, pois não se morava no entorno das charqueadas por conta do mau cheiro das sobras de carne e ossos que entravam em decomposição, da proliferação de moscas e outros insetos. Mais de vinte anos separam o fim do ciclo do charque com o início da ocupação das terras objeto de nosso estudo.



















Figura 8 – Entrada da Vila da Palha, início da Avenida Auguste de Saint-Hilaire.
Fonte: Elaborada pelo autor.


ANEXO - 1



Transcrição da Lei que regulariza a posse dos moradores da Vila da Palha.



LEI Nº 2.709

Autoriza o Município a receber em doação, uma Gleba de terras, de propriedade do Dr. José Ottoni Ferreira Xavier e dá outras providências.

O PREFEITO MUNICIPAL DE PELOTAS, Estado do Rio Grande do Sul.

Faço saber que a Câmara Municipal de aprovou e eu promulgo a seguinte Lei:

Art. 1º - Fica o Município, pelo Poder Executivo, autorizado a receber em doação do Dr. José Ottoni Ferreira Xavier uma Gleba de Terras, com 1.11.35 ha., no local denominado “Vila da palha”, situada entre a Rua Saint Milaire (antiga Estrada para o Laranjal) e a Charqueada Barcellos à beira do Arroio Pelotas, imóvel este registrado no 2º Ofício do Registro de Imóveis, à fls. 263 do Livro 3/AD, sob nº 32.908.

Art. 2º - O imóvel, objeto da doação, destina-se à regularização dos posseiros da “Vila da Palha”.

Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

GABINETE DO PREFEITO DE PELOTAS, EM 13 DE MAIO DE 1982.

Irajá Andara Rodrigues
Prefeito